No dia 4 de agosto uma grande explosão na cidade de Beirute, no Líbano, deixou 154 mortos e mais de 5 mil feridos. O trágico acidente retomou as discussões sobre como armazenar produtos explosivos, uma vez que o principal suspeito de ter causado a explosão foi um estoque de nitrato de amônio. 

Essa substância é amplamente usada na agricultura como fertilizante e por isso é comercializada em grandes quantidades. Em Beirute, havia 2.570 toneladas de nitrato de amônio no local da explosão. O montante estava armazenado no porto da cidade há 6 anos, desde que foi confiscado de um navio da Geórgia que tinha como destino Moçambique e passava pelo Líbano. 

O nitrato de amônio é um sal de cor branca, inodoro e altamente solúvel em água. Além do uso na agricultura, é conhecido por ser componente de explosivos para mineração. No entanto, a substância em si não é explosiva. Para que se torne perigosa nesse sentido, é preciso que o material entre em contato com combustíveis ou fontes de calor intenso.

Desse modo, os agentes de segurança do Líbano levam a investigação para esse caminho, descobrir qual o fator que transformou o nitrato de amônio em uma verdadeira bomba. 

O que se sabe até então é que explosões como essa podem ser evitadas com um estoque correto das substâncias. Portanto, hoje, vamos conferir como armazenar produtos explosivos de maneira segura. 

Outras explosões com nitrato de amônio

A estocagem do nitrato de amônio já causou grandes tragédias mundo afora. Antes de conferirmos como fazer o armazenamento adequado, vamos conhecer rapidamente esses episódios a fim de traçar um parâmetro entre eles e visualizar os equívocos que causaram as explosões. 

Há quase 100 anos uma tragédia catastrófica causada por um estoque de nitrato de amônio deixou 561 mortos e quase 2 mil feridos na fábrica de Basf em Oppau, na Alemanha. O acidente causou duas explosões que destruíram cerca de 80% das casas da cidade alemã. 

Na época, acreditava-se que substâncias com menos de 60% de nitrato não eram explosivas. 

Em 1947, nos Estados Unidos, novamente esse material causou uma grande explosão que resultou em 581 mortes. Neste episódio, o nitrato estava armazenado em um navio ancorado no porto de Texas City. 

Havia cerca de 2,3 mil toneladas de nitrato de amônio armazenados no navio francês que explodiram após um incêndio no local. O material acabou por começar uma sequência de outras explosões no porto. Até hoje, o acidente é considerado o mais mortal da história norte-americana. 

Aqui no Brasil também houve graves danos causados pelo armazenamento irregular do nitrato de amônio. Em 2017, na cidade de Cubatão, no litoral de São Paulo, houve uma explosão em um tanque de fertilizantes da empresa Vale

Felizmente não houve mortes. Porém, o acidente, que começou com um incêndio na correia transportadora do armazém, deixou o país em alerta quanto ao uso e estocagem do nitrato de amônio. 

Para que nenhuma dessas tragédias voltem a se repetir, é necessário traçar um perfil dos erros cometidos anteriormente. Podemos notar que em todos esses casos a substância teve contato com fogo, o que causou as explosões. 

Logo, agora vamos conhecer as normas oficiais para saber como armazenar produtos explosivos e evitar acidentes. 

Como armazenar produtos explosivos 

No Brasil, um dos órgãos responsáveis pela segurança química do país é o Ministério do Meio Ambiente (MMA). Os profissionais especializados nessa área fazem a gestão de produtos químicos a fim de prevenir “problemas como formação de áreas contaminadas, emergências com produtos perigosos, prejuízos com tratamento de intoxicações e doenças crônicas”, segundo o MMA. 

Esse órgão tem como objetivo, para 2021, elaborar e implementar a chamada Política Nacional de Segurança Química. Esse conjunto de normas visa assegurar que materiais químicos tenham maior fiscalização durante a produção e uso. 

No entanto, enquanto esse material ainda não é divulgado, há outras normas que procuram garantir a segurança nacional diante do armazenamento de substâncias químicas. 

Rotulagem no almoxarifado 

O local correto para guardar os produtos químicos sempre deve ser um almoxarifado que segue padrões de segurança. Neste local e nos materiais encontrados nele, deve haver sinalização para evitar acidentes. 

Cada produto deve ser sinalizado com:  nome da substância, uso específico, data de preparação, validade e fator estequiométrico. 

Normas da edificação

Para auxiliar na garantia de segurança química, o Ministério do Trabalho e Emprego também tem leis que especificam o armazenamento de produtos químicos. 

Segundo a Norma Regulamentadora Nº8, os principais requisitos técnicos que devem ser observados nos prédios de estocagem são:

  • Os locais de trabalho devem ter a altura do piso ao teto, pé direito, de acordo com as posturas municipais, atendidas as condições de conforto, segurança e salubridade, estabelecidas na Portaria 3.214/78.
  • Os pisos dos locais de trabalho não devem apresentar saliências nem depressões que prejudiquem a circulação de pessoas ou a movimentação de materiais. (108.003-2 / I1)
  • As partes externas, bem como todas as que separem unidades autônomas de uma edificação, ainda que não acompanhem sua estrutura, devem, obrigatoriamente, observar as normas técnicas oficiais relativas à resistência ao fogo, isolamento térmico, isolamento e condicionamento acústico, resistência estrutural e impermeabilidade. (108.012-1 / I1)
  • As edificações dos locais de trabalho devem ser projetadas e construídas de modo a evitar insolação excessiva ou falta de insolação. (108.015-6 / I1)

Considerações para uso de produtos explosivos

De acordo com documento feito pela Fundação Fiocruz, “Armazenamento de Produtos Químicos”, deve-se considerar:

  • Sistema de ventilação.
  • Sinalização correta.
  • Disponibilidade de equipamentos de proteção individual e equipamentos de proteção coletiva.
  • Área administrativa separada da área técnica e da armazenagem.

Ainda neste documento, encontramos uma tabela completa com materiais e suas incompatibilidades. Ou seja, quais produtos devem ser evitados armazenagem no mesmo local. Assim, os riscos de contato e possíveis acidentes são reduzidos. 

No caso do nitrato de amônio, os materiais incompatíveis são: Ácidos, metais em pó, substâncias orgânicas ou combustíveis finamente divididos. 

Para conferir quais outros produtos químicos são incompatíveis, clique aqui

Por fim, ainda podemos destacar as seguintes normas da Fiocruz de como armazenar produtos explosivos. Segundo a fundação, os almoxarifados devem ser:

  • Construído com pelo menos uma de suas paredes voltadas para o exterior.
  • Possuir janelas na parede voltada para o exterior, além de porta para o acesso do Corpo de Bombeiros de houver necessidade.
  • Deve possuir saída de emergência bem localizada e sinalizada.
  • Deve possuir um sistema de exaustão, ao nível do teto para retirada de vapores leves. E ao nível do solo para retirada dos vapores mais pesados.
  • Refrigeração ambiental caso a temperatura ambiente ultrapasse a 38 ºC.
  • Iluminação feita com lâmpadas à prova de explosão.
  • Presença de extintores de incêndio com borrifadores e vasos de areia.
  • Prateleiras espaçadas, com trave no limite frontal para evitar a queda dos frascos.

Seguindo essas regras de como armazenar produtos explosivos, é possível garantir um local seguro. O objetivo dos profissionais de segurança química deve ser preservar a vida e o ambiente. Portanto, um agente de proteção de materiais explosivos deve estar sempre atento a essas normas reguladoras. 

Compartilhe!