O poeta português, Fernando Pessoa, dizia: “O mar é a religião da Natureza”. E não há quem possa discordar de suas sábias palavras. Entretanto, depois de delimitar a religião, quem cuida de sua segurança? Quais os procedimentos e forças que  regem as águas oceânicas mundo afora?

Esse texto é fruto de uma viagem por mares agitados. Hoje, vamos descobrir como se comportam grupos piratas que em pleno 2020 continuam na ativa. Nessa jornada, navegaremos pela região chamada de Chifre da África, para desvendar qual a história dos Piratas da Somália. 

Um brasileiro na área dos piratas

Quem vai contar essa história hoje para vocês sou eu, Coronel Leonardo Sant’Anna. Sou fundador da Total Florida International e há 29 anos atuo no ramo da segurança pública e privada. Aos 26 anos,  fui o primeiro representante das polícias e bombeiros militares do Brasil em uma missão de paz da ONU. Essa experiência, em síntese, mudou a maneira como eu me comporto diante de situações delicadas. Assim como essa que contarei para vocês.

Algumas semanas atrás, antes da Organização Mundial da Saúde decretar que o mundo encontrava-se sob pandemia causada pelo covid-19, estive em uma viagem internacional. O meio de transporte escolhido para tal jornada foi um navio de cruzeiros. Ao embarcar no transatlântico, nenhum dos passageiros ou tripulantes poderia sequer imaginar as aventuras que estávamos prestes a viver. 

Antes do coronavírus se tornar inimigo número 1 da humanidade, o grupo de pessoas que estavam ali no navio enfrentaram outra ameaça: os Piratas da Somália. 

Para tranquilizar a todos, é importante deixar claro que nosso navio em momento algum entrou em combate ou teve qualquer contato com esse grupo de pessoas. Apenas estávamos na mesma rota em que os piratas costumam efetuar saques e sequestros. Podemos chamar o trajeto de A Rota do Medo. 

Contudo, esse é apenas um apelido que demos ao caminho. A Rota do Medo, na verdade, é conhecida oficialmente como Chifre da África. É uma das mais importantes vias de navegação do mundo. E, também, a mais perigosa, soma 30% de todos os ataques de piratas do planeta.

Uma história, três pontos de vista

Uma boa narrativa nunca carrega apenas uma interpretação. Para compreender por completo qual a história dos Piratas da Somália, é preciso analisar os 3 pontos de vista que a envolvem. 

O primeiro é a violência, os números em relação a sequestros e roubos de navios que passam pela rota dos piratas. O segundo ponto de vista é o humanitário, vamos entender a realidade que os somalis enfrentam diariamente e como o mar é uma alternativa para suas necessidades. A terceira versão dessa história é um balanço das duas anteriores, somado a minha experiência como profissional da segurança e análise crítica das forças que nos protegiam ao longo da viagem. 

1ª vertente: o crime de pirataria

Grande parte da população imagina que a pirataria nos dias atuais acontece de maneira bem diferente. Me refiro aos camelôs, produtos falsos, cópias e réplicas de produtos audiovisuais e de leis referentes a violação dos direitos de autor. Ou seja, todas as práticas puníveis que estão prescrita na LEI No 10.695, DE 1º DE JULHO DE 2003. 

Essa é uma versão da pirataria contemporânea a que temos maior contato no Brasil. No entanto, hoje, vamos conhecer outra face da pirataria, aquela que se assemelha mais ao imaginário popular criado pelas histórias que ouvimos desde a infância. Estou falando de piratas que realmente usam navios para assombrar os mares. 

De acordo com minha experiência e com as pesquisas a que me dediquei, não são apenas navios que os piratas usam atualmente. Os Piratas da Somália, são modernos e usam da tecnologia para praticar crimes complexos. 

Segundo informações veiculadas no portal BBC, esse grupo administra operações sofisticadas. Para isso, usam equipamentos de tecnologia avançada, como telefones por satélite e aparelhos de GPS.

Eles também possuem armamentos como lança-granadas e rifles AK-47. Ademais, contam com a ajuda de contatos posicionados em portos do Golfo de Áden (entre a Somália e o Iêmen), que os avisam sobre a movimentação dos navios.

A pirataria moderna

Além do roubo de embarcações, os piratas faturam com o pagamento de resgate após o sequestro da tripulação. O Ministério das Relações Exteriores do Quênia estima que os piratas tenham faturado US$ 150 milhões no ano passado com o pagamento de resgates.

Por construírem essa “fama” de pessoas muito perigosas e agirem de maneira criminosa, quando os passageiros do navio em que eu estava ficaram sabendo que da rota em que navegávamos, em águas dominadas pelos piratas, houve momentos de tensão. 

Em cada uma das cabines do navio, foi entregue um comunicado oficial da tripulação, que nos informava sobre a posição do navio perante um possível encontro com os piratas. Neste informativo, nos contavam que as forças de segurança do navio estavam preparadas para um combate armado, caso fosse necessário. 

O que não foi preciso. No entanto, essa informação bastou para que os turistas ficassem preocupados e receosos. Essa sensação de medo foi construída, em grande parte, por conta de um filme lançado alguns anos atrás cujo tema era justamente os Piratas da Somália. 

Uma produção hollywoodiana 

A história dos Piratas da Somália já foi contada em uma grande produção cinematográfica, no filme Capitão Phillips, estrelado por Tom Hanks. O filme conta a história do primeiro navio de carga norte-americano a ser sequestrado em duzentos anos.

É uma adaptação baseada em fatos que aconteceram em 2009, onde o navio Maersk Alabama foi sequestrado por piratas da região da Somália. Confira o trailer abaixo: 

2ª vertente: realidade somali

Outro ponto de vista sobre a pirataria na costa da Somália tem um viés muito mais crítico quanto ao contexto social da população. 

Estamos falando de um país com uma das mais altas taxas de mortalidade infantil do mundo. Na qual cerca de 10% das crianças morrem pouco depois de nascer. 

A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras considera a situação do país “catastrófica”. O país tem o maior número de subnutridos do mundo, 75% da população. Isso coloca a Somália entre os 8 países mais pobres do planeta.

Esse triste cenário fez com que grupos organizados vindos do exterior vissem no povo somali uma mão de obra barata e explorável. No entanto, a história da pirataria na Somália não tem caráter original de crueldade. 

O país não tem uma guarda costeira para proteger suas entradas marítimas. Desse modo, isso contribui para que o mar aberto seja alvo fácil de grupos organizados. O que possibilita o roubo de peixe e frutos do mar, que são alimento da população litorânea. 

Então, os próprios moradores do litoral começaram a se organizar para proteger o alimento que encontravam por perto. A princípio, era um ato completamente distinto do que se vê hoje. 

3ª vertente: indústria de segurança

Partimos para um terceiro ponto de vista. Esse que posso falar com mais propriedade: a questão dos procedimentos de segurança que haviam no navio. 

A partir do momento em que fomos informados sobre a possível ação de piratas na região, a minha experiência em segurança foi importante para acalmar a todos que estavam comigo. 

Eu sabia que estávamos protegidos, pois o navio pertencia ao grupo MSC, referência em segurança marítima em todo o mundo. Com 30 anos de experiência e  contava, portanto, com profissionais com alto nível de  treinamento. 

A empresa está presente em 155 países. Nesse sentido, conta com mais de 5.000 profissionais de segurança. E além dos navios de cruzeiro, faz a segurança marítima de plataformas de petróleo. E, também, de embarcações de contêineres com carga por todo o mundo.

Certamente, estávamos a bordo de um cruzeiro que contava com um exército naval. Os profissionais de segurança da MSC constituem um dos maiores exércitos privados do mundo para proteção marítima. Saber dessa informação foi crucial para manter a calma e prosseguir viagem com mais tranquilidade. 

Qual a história dos Piratas da Somália

Juntando esses 3 pontos de vista, podemos visualizar um panorama completo. De acordo com o contexto social, econômico, político e de segurança, aplicado à realidade dos piratas somalis. 

Ao longo dos anos, pude viver intensas experiências mundo afora. Esse capítulo em águas que banham o continente africano, certamente, entrou para o hall das memórias especiais que carrego ao longo da minha jornada pelo mundo da segurança. 

Como profissionais da segurança, devemos estar sempre atentos aos procedimentos. Acompanhando informações e dados relevantes em todo tipo de ação, seja na terra, no ar, ou no mar. O conhecimento técnico vem acompanhado de estudos constantes sobre a sociedade e a realidade das pessoas. Por esse motivo, é preciso manter o crivo analitico sobre qualquer ocasião. Pois, assim como nessa história, sempre há diferentes interpretações para a mesma situação. 

Portanto, agora que você já sabe qual a história dos Piratas da Somália, pode ter um olhar mais crítico perante essa realidade. 

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